Operadoras europeias pedem concentração e questionam debate sobre soberania
As operadoras europeias voltaram a defender, durante o MWC 2026, a flexibilização de regras locais para permitir uma concentração de mercado que leve a um aumento da capacidade de investimentos e competitividade das operadoras. O Presidente da Telefónica, Marc Mutra, inclusive apontou o Brasil como um exemplo em que um movimento de concentração de mercado trouxe resultados financeiros positivos para a empresa, se referindo ao processo de consolidação das operadoras móveis acontecido em 2022 (quando Vivo, Claro e TIM compraram a Oi Móvel).
Mas o problema de fundo das operadoras europeias é ainda maior. Se ao mesmo tempo elas pedem há anos uma capacidade maior de competir, de outro lado são cada vez mais cobradas pelos governos para que ocupem um papel central em relação à soberania digital de seus países.
Para Tim Hottges, CEO Deutsche Telekom, enquanto em outros mercados, especialmente o norte-americano, a empresa ganha market share, “na Europa nada melhora”. Ele criticou duramente a proposta de um Digital Network Act feita pela Comissão Europeia e disse que “é melhor não ter nada”, porque ao mesmo tempo em que ele traz algumas mudanças no mercado de espectro, cria mais uma grande quantidade de regras. “Estamos investindo 2% a menos porque nada acontece. Passamos um ano discutindo e não houve nenhuma redução de regulação”, disse.
Ele disse que existe uma pressão para que as empresas de telecom invistam em IA e em novos serviços, mas que a escala das operadoras de telecom é cada vesz mais limitada pelas regulações locais, enquanto players como Starlink e as empresas de Internet atuam globalmente praticamente sem limites regulatórios.
Além disso, diz ele, há forte apoio do estado em desenvolvimentos de projetos como foi o caso da Starlink, por exemplo. “De nada adianta o governo pedir investimentos em data centers se os dados não forem colocados conosco”, diz.
Protecionismo
Ele também fez críticas às medidas protecionistas de compras de equipamentos que têm sido impostas pelos reguladores. “Não podemos ser dependentes de ninguém e temos que negociar com todos. Só assim teremos soberania”, disse. “Estamos vendo mudanças sísmicas com IA, e em relação à nossa regulação nada mudou em 12 anos. Temos uma regulação de 15 anos, mas precisamos de escala, estímulo a investimento e flexibilidade”.
Para Mutra, “a questão da soberania passa por produtos digitais essenciais, como cibersegurança, a tecnologia de software dos hyperscale e produtos AI. São produtos muito difíceis de desenvolver e replicar. Temos skills, mas não temos orquestração. Não tem como ser soberano sem ter tecnologia de hyperscale, cibersegurança e os algoritmos de recomendação”, disse.
“É a saída fácil mandar trocar os fornecedores e mudar a rede, e foi a única coisa que mudou até agora. E (o regulador) não disse quanto tempo nem quanto custa”, disse ele em relação às determinações dos reguladores europeus para que fabricantes chineses fossem retirados da rede como uma forma de garantir soberania aos países.
Satélites
Em relação ao mercado de satélites, Jean François Fallacher, CEO Eutelsat, disse que hoje o mercado “briga em um mundo de gigantes com Starlink e Amazon”. Para ele, a “Europa é uma coleção de 27 países, com a tendência de fragmentar e querer fazer por conta própria, mas que deveria priorizar o desenvolvimento de uma constelação LEO “porque isso não é algo que podemos ficar dependente”.
Segundo ele, são investimentos muito grandes e essenciais para os países da região. “Estas constelações são investimentos muito grandes que custam pelo menos US$ 7 bilhões. D2D é algo que ainda está longe porque precisamos de muitos investimentos.
Samuel Possebon, Teletime, 2 de março de 2026




