Os desafios da expansão do vídeo sob demanda e TV
O termo IPTV tem sido utilizado atualmente em várias tecnologias e sua definição não é totalmente clara, mas pode ser considerada a entrega de vídeo ao dispositivo do usuário final através do protocolo de internet IP. Para as telcos essa tecnologia representa mais um meio de ingressar no mercado de TV por assinatura, já que a largura de banda disponível no par trançado não é o suficiente para trafegar centenas de canais de televisão simultaneamente, assim como é feita nas redes de cabos coaxiais das operadoras de cabo.
O uso da tecnologia IP é conveniente para as telcos, já que se podem utilizar esquemas de transmissão multicast e unicast ao invés do broadcast, que apesar de mais barato, utiliza a banda disponível de maneira ineficiente. A utilização da tecnologia IP faz com que somente os canais que estão sendo assistidos trafeguem na rede. Com a adição de um servidor de vídeo sob demanda, no qual o usuário tem acesso aos conteúdos, e set top boxes IP nas casas dos assinantes, um sistema de vídeo sob demanda poderá ser criado.
Ao contrário das transmissões tradicionais, no vídeo sob demanda a programação não é linear, o usuário assiste conteúdo quando,onde e como quiser. As vantagens são: a infinidade de conteúdos disponíveis para escolha, a possibilidade de ter seu próprio horário para assistir os programas desejados e a sensação de pagar somente pelo o que se assiste, já que no modelo atual é entregue ao assinante um pacote com diversos canais dos quais uma pequena porção são de fato assistidos.
No broadcast, tal como feito nas redes de cabo, o espectro é ocupado pelos diversos canais que estão sendo transmitidos, e como eles devem passar todos juntos e ao mesmo tempo por esse tubo, há uma limitação de espaço, isto é, o número de canais é limitado. Em um ambiente IPTV/ VOD, o número de canais poderá ser tão grande quanto o usuário quiser, pois o conteúdo que passa pelos cabos será somente os que foram escolhidos. No entanto, o fato de passar somente o canal escolhido não impede que o usuário tenha uma infinidade de escolhas, e isso só dependerá do tamanho do servidor.
Nesta nova cultura influenciada pela Internet, há maior liberdade e possibilidades de escolha para o usuário. Ou seja, é um serviço de maior valor agregado para o telespectador já que emprega mais tecnologia para que o usuário final tenha uma televisão mais personalizada. Segundo estatísticas do comScore, em junho de 2009, 16,8 bilhões de vídeos online foram vistos nos EUA por 152 milhões de usuários, atingindo uma média de 6,4 horas por mês de vídeos para cada usuário e este número cresce mês a mês.
O acesso as esses sites é gratuito, ou seja, percebe-se que há demanda por esse tipo de serviço, no entanto não se sabe se o usuário pagaria para ter esse serviço disponível na tela da sua televisão. Além disso, os números de comercialização do Pay Per View, sistema no qual os assinantes compram filmes pela tela do televisor, animam as operadoras a implementar esse novo serviço. A diferença é que no VOD o usuário terá controle no fluxo de vídeo e não precisará esperar a janela de exibição do filme.
De olho nesse mercado, muitas operadoras ao redor do mundo já oferecem essa tecnologia, como a Verizon e Comcast nos Estados Unidos. No Brasil, em algumas regiões, já é possível contratar serviço de vídeo sob demanda, com locadoras virtuais oferecendo filmes, seriados e documentários. Por exemplo, em algumas regiões em São Paulo ,atendidas pela fibra óptica da Telefônica, há a oferta do TVA Xtreme, que oferece ao assinante uma locadora virtual na tela do televisor, e a compra ou pedido do conteúdo é feito via controle remoto.
O principal desafio para as telcos será a expansão dos serviços para outras áreas, já que hoje só é oferecido o serviço nas regiões onde os usuários são atendidos por fibra. O problema de fazer a entrega através do par trançado é que a velocidade obtida na ponta do usuário depende muito das condições em que se encontra o par trançado e sua distância da central. Como há uma grande quantidade de cabos telefônicos instalados nos grandes centros urbanos, substituir todos por pares trançados novos ou fibra óptica, seria inviável devido aos altos custos associados.
Logo, espera-se que somente nas regiões com maior poder aquisitivo ou que sejam de grande interesse da operadora, a fibra seja instalada até o usuário. No restante das áreas, o mercado aposta em uma arquitetura de rede híbrida, com a fibra óptica chegando a um armário próximo do usuário, e as últimas centenas de metros o cabo de cobre já instalado aliado a alguma tecnologia xDSL (Digital Subscriber Line) concluiria o link entre central e assinante.
Tecnologias sem fio também serão consideradas para o acesso de última milha, tal como o WiMax. O importante é que essa nova rede seja capaz de comportar o tráfego de dados e vídeos sem que haja a necessidade de altos investimentos. Além dos desafios técnicos, há também algumas barreiras no campo regulatório para a entrada das telcos no mercado de Pay-TV, pois se a IPTV for vista como serviço de tv por assinatura, haverá necessidade de obter licenças junto a ANATEL para operar nas cidades.
As operadoras de cabo também terão grandes desafios para implementar serviço de vídeo sob demanda. Nenhuma ainda oferece comercialmente o serviço e muitas delas ainda terão que modernizar suas redes para 860MHz ou 1GHz, se quiserem ter banda suficiente para acomodar o vídeo sob demanda mais os serviços disponíveis atualmente. Existe também uma grande discussão na área de cabo, sobre qual solução apresenta o melhor custo-benefício para implementação de IPTV/ VOD, já que alguns modelos foram propostos por alguns fabricantes de equipamentos.
Um dos modelos propostos sugere que o tráfego de vídeo não passe pelo núcleo do CMTS, por ser muito mais intenso e constante que o tráfego de rajadas comuns as aplicações web. Esse desvio deve ser feito, pois o vídeo consumiria muito processamento do CMTS e prejudicaria os serviços de dados e voz. Para evitar esse super carregamento, haveria a necessidade das operações despenderem um alto valor para adquirir novos equipamentos CMTS’s para suportar esse novo tráfego de vídeo.
Há no mercado fabricantes que oferecem uma solução que cria um caminho direto entre o servidor de vídeo sob demanda e os moduladores QAM. Essa solução retira parte do processamento do CMTS e coloca essas funções nos moduladores, visando diminuição do número de CMTS’s e consequentemente redução de custos. Há também os contra-argumentos dos defensores do uso do CMTS para VOD no cabo. Uma das principais alegações é que o novo padrão DOCSIS 3.0 conjuntamente com o CMTS modular tem como um dos objetivos a redução de custos. Acredita-se que os custos dos processadores multi-core cairão devido ao ganho de escala e melhoramento das técnicas de fabricação. Consequentemente o preço do CMTS também ficará mais baixo, permitindo seu emprego em maior escala.
No entanto, para as operadoras de cabo a solução ainda não é inteiramente IPTV, pois a rede IP termina nos moduladores QAM, e a partir daí o transporte é feito via MPEG Transport Stream. O que se tem é uma rede híbrida e o conteúdo pode ser entregue ao usuário final em formato tradicional. Ambas as plataformas suportam a implementação do vídeo sob demanda, resta saber qual das duas apresentará o melhor custo beneficio, já que os investimentos são consideráveis e muitas vezes a margem de lucro poderá ser baixa. Mas uma coisa é fato, tanto as telcos como as operadoras de cabo vêem os serviços de vídeo sob demanda como uma maneira de oferecer aos usuários um produto mais refinado, e com isso aumentar a fidelidade do assinante e possivelmente a ARPU (Average Revenue Per User).
*José Mário Tagliassachi, gerente de engenharia e William Kamizaki, engenheiro eletricista da Tele Design




