Brasil tem déficit comercial de US$ 4,5 bi em microeletrônica
Foco do governo para consolidar setor será design de semicondutores
A indústria de microeletrônica brasileira move cerca de US$ 4,5 bilhões por ano, mas esse mercado local é quase totalmente alimentado por fabricantes externos. Apenas no primeiro semestre de 2011, o Brasil já gastou US$ 2,4 bilhões com a importação de chips para a montagem de placas e aparelhos, atividade de baixo valor agregado a qual se limita boa parte da indústria no país.
“Precisamos trazer ao menos parte dessa indústria para a produção nacional, nossa balança comercial não pode mais depender das commodities”, disse Ricardo Gonzaga, especialista de projetos de cooperação industrial da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), durante evento do órgão do Ministério do Desenvolvimento em São Paulo nesta terça-feira (20).
No workshop da ABDI voltado para as cerca de 22 empresas de desenho de chips, ou Design Houses, instaladas no país, representantes do governo reforçaram a importância do setor para a indústria brasileira como um todo. “O governo está dando todos os incentivos, tentando atrair ao máximo as fabricantes multinacionais e garantir, ao mesmo tempo, que o conhecimento fique no país”, afirmou Gonzaga.
Segundo o coordenador de microeletrônica do Ministério de Ciência e Tecnologia, Henrique Miguel, o foco do governo no desenvolvimento da indústria nacional será nas Design Houses, por fazerem a ponte entre as empresas de semicondutores e as fabricantes de produtos finais, que vão desde computadores, smartphones e tablets, a automóveis e eletrodomésticos, onde a tendência é de uma dependência cada vez maior sobre a microeletrônica, com os carros elétricos e casas conectadas. “O Brasil tem muita força nessas indústrias, mas já hoje, todos os componentes são importados”, lembrou Gonzaga.
“A indústria que não integrar os semicondutores rapidamente será dizimada”, acrescentou Miguel, citando o exemplo do setor de iluminação, hoje dominado pelas LEDs. A iluminação e os displays devem ser, inclusive, uma das principais áreas de foco para a indústria microeletrônica brasileira, segundo Miguel, junto com as tecnologias de rastreamento e de comunicação sem fio, e não os mercados de tablets e smartphones, mais competitivos. “É muito difícil entrar nessas commodities. Onde temos chance é no setor de back end”, afirmou.
A estratégia do governo desenvolvida ao longo dos anos buscou criar um mercado de Design Houses, com programas de formação de engenheiros e de incentivo para empresas, com o licenciamento do software necessário para criar projetos de chips e bolsas para a contratação de projetistas. “Agora queremos profissionalizar esse setor, tirar a âncora”, disse o especialista da ABDI.
Segundo Miguel, a expectativa do governo é crescer para, em 4 anos, o Brasil ter ao menos 10 Design Houses com mais de 100 projetistas e com faturamento de R$ 100 milhões. Hoje, apenas a multinacional Freescale conta com esses números, enquanto o resto do mercado emprega um total de cerca de 500 engenheiros.
Outra empresa que deve atingir em breve esses números, de acordo com o coordenador de microeletrônica do MCT, é o Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec). A fabricante de semicondutores estatal, com sede em Porto Alegre, é atualmente alvo de MP em desenvolvimento no Congresso para permitir que o centro abra subsidiárias no Brasil ou no exterior.




