Licenciamento energético preocupa setor de data centers
O processo de licenciamento energético para grandes data centers no Brasil é hoje um dos entraves à atração de novos investimentos, especialmente no segmento de inteligência artificial. A avaliação é de Renan Lima Alves, presidente da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC) e CEO da Boost Engenharia.
Segundo ele, o setor enfrenta prazos de nove a 14 meses para obter pareceres de acesso à rede elétrica no Sistema Interligado Nacional (SIN), o que compromete a viabilidade de empreendimentos que exigem rápida decisão e elevada carga energética.
“Isso nunca foi problema, mas agora que a gente precisa da resposta de dia para a noite, começa a se tornar um”, afirmou Renan em entrevista ao Tele.Síntese. Confira a íntegra no videocast acima.
Processo envolve MME, ONS e Aneel
Para a implantação de um data center de grande porte — com demanda superior a 100 megawatts —, é preciso consultar a rede básica de transmissão, sob gestão do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O pedido deve passar antes pelo Ministério de Minas e Energia (MME), que emite o parecer inicial.
O trâmite atual é considerado moroso e pouco previsível. “Mesmo que o MME e o ONS queiram acelerar, não podem simplesmente mudar as regras, pois estão subordinados às normas da Aneel”, explica Renan. A expectativa do setor é que uma nova metodologia seja publicada nas próximas semanas, com inversão da ordem de análise: o ONS avaliaria primeiro a viabilidade elétrica do local, permitindo ao investidor saber em até 120 dias se o terreno é adequado à construção.
Garantia contra especulação
Outra medida já implementada foi a exigência de garantia bancária para emissão do parecer de acesso, com o objetivo de evitar a especulação imobiliária. Antes da exigência, empresas sem intenção real de construir usavam o documento para valorizar terrenos. “Isso acabava tirando da fila empreendedores que de fato têm capacidade financeira e vontade de executar o projeto”, disse o executivo da ABDC.
A garantia é abatida do custo futuro do uso do sistema, mas representa um valor elevado o suficiente para desestimular especuladores e ao mesmo tempo viável para players comprometidos com a implantação.
Cadeia de decisões afeta investimentos em IA
O gargalo energético preocupa o setor especialmente neste momento de crescimento da demanda por data centers de IA, que exigem grande densidade de potência e disponibilidade energética contínua. Centros de treinamento de IA — como os usados por modelos generativos — requerem gigawatts de capacidade elétrica e não possuem latência crítica, o que permitiria sua instalação em áreas mais afastadas, desde que a infraestrutura energética esteja disponível.
Segundo Renan, o tempo entre a decisão de investir e a entrada em operação de um data center desse porte pode chegar a três anos, considerando projeto, licenciamento, obras e comissionamento. Sem previsibilidade energética, essa janela se perde, e os investimentos vão para outros países mais ágeis, alertou.
A ABDC defende que o país consolide um ambiente mais transparente e célere para a implantação de infraestrutura crítica, incluindo data centers de grande porte. A entidade acompanha as discussões regulatórias e mantém diálogo com o governo federal, em busca de soluções que combinem segurança técnica com simplificação administrativa.
Rafael Bucco, Tele Síntese, 4 de agosto de 2025




