Rede Mocoronga: Debaixo da floresta, tem gente
Enquanto o país ainda não consegue dar acesso à internet e universalizar o serviço, no estado do Pará surgem iniciativas da própria sociedade civil que dão exemplo de desenvolvimento e cidadania. É o caso dos Telecentros Culturais da Rede Mocoronga de Comunicação Popular, uma iniciativa do Projeto Saúde & Alegria que atua em áreas rurais e regiões ribeirinhas dos municípios de Santarém, Belterra, Aveiro e Juruti, no Oeste do Pará.
O Projeto surgiu a partir da experiência do médico Eugenio Scannavino, contratado em 1983 pela Prefeitura de Santarém para dar assistência em saúde aos moradores de zonas de difícil acesso, onde as ações do SUS (Sistema Único de Saúde) eram insuficientes para atender as demandas básicas da população. Em 1995, os integrantes do Projeto decidiram ampliar sua atuação ao constatar que para combater o isolamento das populações ribeirinhas era preciso mais que levar atendimento médico em um barco. Era preciso oferecer, também, educação, arte e, principalmente, construir uma rede de comunicação entre as comunidades.
Coordenador de educação e comunicação da Rede, Fábio Pena conta que o primeiro financiamento veio da Unicef. “Durante todo o trabalho com o barco, a gente percebeu que a questão da saúde era muito mais ampla do que só cuidar das doenças. É preciso um processo de desenvolvimento como um todo, desde melhorar a renda até o acesso à informação, educação e expressão”. Paulo Lima, coordenador de inclusão digital, faz coro e acrescenta que a principal meta do Projeto Saúde e Alegria é justamente promover e apoiar processos participativos de desenvolvimento comunitário integrado e sustentável, através da comunicação em rede, que aprimorem as políticas públicas e a qualidade de vida da população da região.
INVESTIMENTOS NOS JOVENS
Organizada por meio de sucursais comunitárias, a Rede Mocoronga capacita adolescentes e jovens em oficinas de educomunicação para a produção de programas de rádio, vídeos, jornais locais e conteúdos para internet. A produção audiovisual é feita por celulares e smartphones que os jovens repórteres comunitários recebem graças a um financiamento da Fundação Telefônica. Uma atividade cultural que, como diz Paulo Lima, mostra que “debaixo da floresta da gente, tem gente”. Atualmente o projeto atende 32 comunidades e uma média de 250 jovens.
E são exatamente esses jovens que passaram a atuar na disseminação de informações e campanhas educativas para a população local, e a difundir a cultura e os temas da região para o resto do país. Os agentes comunitários de saúde locais passaram a fazer uma utilização específica dos serviços prestados por essas redes de comunicação para o auxílio ao seu trabalho e para a gestão dos indicadores da saúde comunitários.
A Rede Mocoronga abrange ainda a Rádio e a Tv Mocoronga. A Rádio produz a programação que anima as rádios comunitárias locais, chamadas de rádios postes, e mantém um programa semanal na Rádio Rural de Santarém, difundindo campanhas educativas na área de saúde e as produções artísticas e culturais comunitárias. Já na TV Mocoronga, os vídeos produzidos pelos núcleos de cineclube são exibidos nas próprias comunidades, em mostras e circuitos intercomunitários e em TVs parceiras. Cada sucursal também produz um jornal comunitário e a rede edita trimestralmente o jornal intercomunitário “O Mocorongo”, com a seleção das melhores matérias.
Todo este conteúdo sobre a cultura amazônica é divulgado pelos Telecentros Culturais da Rede para as próprias comunidades e para o restante do Brasil nos endereços eletrônicos: redemocoronga.org.br/e ww.saudeealegria.org.br/.
Os Telecentros Culturais possuem pólos avançados em 12 comunidades, com previsão de alcançarem 20 até meados de 2012. Funcionam em espaços físicos próprios ou integrados às escolas com computadores movidos à energia solar, utilizando software livre e acesso à internet via satélite.
SEM LUZ, MAS COM INTERNET
Essa apropriação popular dos instrumentos de comunicação vem provando que é possível, sim, reduzir isolamentos geopolíticos e sociais do país. É difícil acreditar, mas em muitos desses lugares nos quais a internet já é realidade, o programa “Luz Para Todos” nem chegou ainda, como na Reserva Extrativista Tapajós – Arapiuns, em Santarém. Dos 12 telecentros, sete estão em comunidades sem energia elétrica 24 horas por dia. As comunidades são obrigadas a se organizarem e a manterem um gerador a diesel, acionado três ou quatros horas de três a sete dias por semana, sempre à noite.
Na comunidade de Suruacá, a internet já é realidade desde 2003 e só foi possível com a utilização de um sistema de geração de energia solar e conexão via satélite através do Programa Gesac. E embora o programa disponibilize apenas 512 megas para uma média de 8 computadores por telecentro foi graças a essa alternativa que se criou uma cultura de uso de computadores e internet nestas comunidades e nas do entorno.
Infelizmente, de acordo com os coordenadores da rede, embora todas as comunidades atendidas tenham meios de comunicação local em funcionamento como jornais e rádios, a situação dos Telecentros Culturais que dependem do programa Telecentros.BR ainda não é das melhores. Das 12 unidades em funcionamento, três ainda esperam conexão com o programa Gesac há três anos. E apesar do Termo de Cooperação assinado com o Ministério do Meio Ambiente, em março de 2010, que previa a implantação de 80 unidades nos municípios de Santarém, Belterra, Aveiro e Juriti até o ano passado, houve um atraso no cronograma e até agora ainda não houve uma resposta, ou novo posicionamento do governo.
Segundo Pena, no momento existe uma grande pressão das comunidades por estes telecentros, pois o programa vem respondendo a expectativas criadas em décadas de espera por inclusão digital na sociedade da informação das populações tradicionais em situação de isolamento na Amazônia.
Paulo Lima observa que, mesmo com a criação do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), a Região Norte continua em segundo plano. “Para nós é um prejuízo enorme, pois são as oportunidades de economia criativa, pesquisa em ciência e tecnologia, pesquisa sobre a biodiversidade que devem ser o foco do desenvolvimento da região”. Lima lembra que a floresta amazônia sofre grande pressão de empreendimentos (muitos deles ilegais) de exploração madeireira, expansão da pecuária e da agricultura de grãos. “A internet de banda larga, que inexiste em nossa região, deve ser entendida como vetor de desenvolvimento econômico em equilíbrio com a vocação de conservação da natureza dessa região do país”, alerta Lima.




