Data center: mobilização do setor digital não sensibiliza Congresso e Confaz e expõe risco à competitividade do país

mar 31, 2026 by

Apesar do peso crescente na economia brasileira, o setor de tecnologias digitais ainda não conseguiu mobilizar o ambiente político na mesma proporção de sua relevância econômica. Entidades do setor apontam que os números robustos em geração de riqueza, empregos e inovação, têm se mostrado insuficientes para sensibilizar o Congresso Nacional e o Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) sobre a urgência de medidas estruturantes, como o Redata.
O cenário mais recente reforça essa percepção. No Senado, o projeto não avançou dentro do prazo crítico: o setor trabalhava com a aprovação até 25 de fevereiro de 2026, data limite de vigência da medida provisória que instituiu o Redata. Como a proposta não foi pautada até esse prazo, caducou automaticamente, frustrando as expectativas do mercado. Já na última reunião do Confaz, a pauta de tecnologia perdeu espaço para discussões concentradas nos combustíveis, evidenciando a baixa prioridade política do tema.

Peso econômico não se traduz em influência
Dados do setor mostram que a economia digital já ocupa posição estratégica no País. O segmento de TIC representa cerca de 6,5% do PIB brasileiro, segundo dados da Brasscom, e mantém trajetória consistente de crescimento, com investimentos projetados de centenas de bilhões de reais nos próximos anos.

Mesmo com esse peso, a capacidade de influência política do setor ainda se mostra limitada. Prova disso, é a mobilização de diversos emmpresários e entidades na última semana, pedindo a atenção do Congresso Nacional e do Confaz para importância de esfriamento tributário sobre o setor, para incentivar e desgrabar investimentos. A Abranet, por exemplo, tem alertado que o país está perdendo espaço na economia digital global justamente pela ausência de incentivos e pela elevada carga tributária sobre infraestrutura tecnológica.

Empregos, renda e expansão
O setor também é um dos principais motores de geração de empregos qualificados. Segundo estudos da Brasscom, com base em dados oficiais do mercado de trabalho (RAIS e Caged), o Brasil já soma mais de 2,1 milhões de trabalhadores formais em TIC, o equivalente a cerca de 3,8% do total de empregos do país.

Os salários estão entre os mais altos da economia, podendo chegar a três vezes a média nacional em áreas como desenvolvimento de software, enquanto a demanda segue em expansão.

Ainda assim, esse dinamismo não tem sido suficiente para colocar a agenda digital no centro das decisões fiscais e legislativas.

Déficit externo escancara dependência tecnológica
Um dos pontos mais críticos levantados pelo setor é o desequilíbrio na balança de serviços tecnológicos. Segundo dados citados pela Abranet, o Brasil acumula um déficit anual da ordem de US$ 40 bilhões em serviços de computação e informação.

O número evidencia a forte dependência externa em áreas estratégicas como computação em nuvem, licenciamento de software e processamento de dados. Na prática, significa que o país importa muito mais serviços digitais do que exporta, ampliando a saída de divisas e reduzindo sua autonomia tecnológica.

Esse cenário reforça a importância de políticas voltadas à atração de infraestrutura local, como data centers, um dos principais objetivos do Redata.

Falta de talentos amplia pressão
Outro entrave estrutural é a escassez de profissionais qualificados. Projeções indicam um déficit de até 530 mil profissionais de tecnologia nos próximos anos, resultado da diferença entre a demanda crescente e a formação anual de mão de obra.

A lacuna impacta diretamente a capacidade de expansão das empresas e limita o desenvolvimento de soluções locais, aprofundando a dependência externa.

Frustração com o Redata e falta de prioridade fiscal
A combinação desses fatores explica a frustração do setor com a falta de avanços recentes. O Redata, considerado estratégico para atrair investimentos em infraestrutura digital e reduzir custos operacionais, perdeu validade após não ser votado no prazo legal no Senado.

No âmbito do Confaz, a ausência de deliberação sobre incentivos fiscais para tecnologia reforça a percepção de desalinhamento entre política pública e transformação digital.

Competitividade em risco
Para as entidades, o problema não é a falta de dados ou de evidências econômicas, mas a dificuldade de converter esse peso em prioridade política. Porém, sem políticas coordenadas entre Congresso e estados, o Brasil corre o risco de perder relevância em cadeias globais de valor baseadas em dados, inteligência artificial e infraestrutura digital.

Em um momento em que o mundo acelera investimentos em nuvem, IA e data centers, a lentidão decisória interna pode ampliar ainda mais o gap competitivo, apesar de um setor que cresce, gera empregos e já ocupa parcela relevante do PIB.

Jackeline Carvalho, IP News, 30 de março de 2026

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