Mercado aprova compra da Desktop pela Claro e projeta impacto sobre rivais
Analistas de mercado consideram a compra da Desktop estratégica para a Claro e indicam que a operação deve representar uma nova fase nas operações de fusão e aquisição (M&A) no mercado de telecomunicações, gerando, inclusive, reavaliações no valor de provedores de Internet (ISPs) e pressão sobre concorrentes.
“Vemos a aquisição da Desktop pela Claro como um dos movimentos estrategicamente mais relevantes no mercado brasileiro de banda larga nos últimos anos”, afirmou relatório da XP sobre a operação.
“Mais do que um simples bolt-on, a transação reforça a leitura de que o setor está entrando em uma nova fase, na qual o M&A em FTTH deixa de ser apenas sobre expansão de footprint e passa a ser cada vez mais sobre convergência, densidade, retenção e disciplina na alocação de capital”, ressalta a análise.
O relatório destaca que o negócio, avaliado em R$ 4 bilhões, “parece bastante convincente”, tendo em vista que a Desktop “adiciona densidade relevante” à Claro no estado de São Paulo, além de fortalecer a presença da operadora em FTTH.
A Claro, vale lembrar, é líder em banda larga no País, com cerca de 10,6 milhões de clientes, embora apenas 2,7 milhões de acessos usem a tecnologia de fibra óptica. Já a Desktop conta com 1,2 milhão de assinantes por meio de rede de FTTH.
A equipe da XP ressalta que, além da fibra, o negócio se mostra relevante pela convergência de serviços, reforçando a combinação de ofertas de banda larga fixa e telefonia móvel, o que ajuda a manter o churn (taxa de rotatividade de clientes) em níveis baixos e melhora monetização por assinante.
Impacto leve na América Móvil
Analistas do BTG Pactual também apontaram que “o acordo faz sentido estratégico para a Claro”, por reforçar o posicionamento competitivo da operadora em fibra óptica.
Inclusive, no território paulista, o mercado de banda larga tem a Vivo na liderança (31% de market share), seguida justamente por Claro (28%) e Desktop (7,4%). Olhando apenas os números de FTTH (ou seja, desconsiderando outras tecnologias de acesso), a Vivo amplia a liderança (42%), bem à frente de Desktop (11%) e Claro (8%).
Além disso, o relatório do BTG ressalta que “a transação é relativamente pequena” para a América Móvil (AMX), controladora da Claro, de modo que deve ter um “impacto limitado na alavancagem”, passando de 1,52x para 1,55x.
A equipe do Santander tem uma avaliação parecida. “Embora relativamente pequena em tamanho, vemos a aquisição como marginalmente positiva para a AMX, pois deverá permitir que a empresa fortaleça a sua operação de banda larga no mercado-chave de São Paulo”, apontando que a Claro deve alcançar um market share de 35% no território paulista após a transação, levando em conta todas as tecnologias de banda larga.
Reavaliação de ISPs
Com base no preço anunciado do negócio – os R$ 4 bilhões representam cerca de 6,2x o Ebitda da Desktop em 2025 –, os relatórios são unânimes em afirmar que a transação pode gerar uma reavaliação do valor de mercado dos provedores de banda larga.
“Há algum tempo, os ISPs pareciam baratos, mas havia pouca evidência de que compradores estratégicos estariam dispostos a pagar múltiplos mais elevados. A Claro agora fornece essa evidência. Não estamos sugerindo que todo ISP deva ser avaliado a 6,2x EBITDA, dadas as diferenças de geografia, alavancagem, crescimento e encaixe estratégico, mas o benchmark para ativos regionais escalados claramente se deslocou para cima”, avalia a XP.
O BTG sustenta que, de forma indireta, a principal beneficiada pode ser a Unifique. Com o mesmo múltiplo do M&A envolvendo a Desktop, a operadora que atua na região Sul alcançaria um valor de mercado de R$ 3,7 bilhões e um valor patrimonial de R$ 3,3 bilhões (R$ 9,35 por ação), o que implica uma valorização de cerca de 65% em relação ao fechamento da última sexta-feira, 20.
O Santander corrobora tal avaliação: “Em nossa opinião, a aquisição da Desktop é apenas o começo de uma onda de consolidação em um mercado de banda larga brasileiro altamente fragmentado. Vemos um impacto positivo para outras ISPs listadas, especialmente a Unifique, que pode ser vista como um alvo potencial de fusões e aquisições e atualmente está sendo negociada a um múltiplo deprimido de aproximadamente 4x EV/EBITDA.”
Pressão sobre TIM e Vivo?
No que diz respeito às concorrentes da Claro, os analistas da XP observam que a aquisição da Desktop pode gerar pressão sobre a TIM, no sentido de a tele “definir um caminho mais claro em banda larga fixa”, haja vista que a convergência tem ganhado importância em mercados urbanos.
“Isso não implica necessariamente uma aquisição imediata — parcerias ou expansões seletivas seguem como alternativas —, mas, se os melhores ativos regionais se tornarem mais escassos ou começarem a ser precificados a partir de um benchmark mais elevado, o leque de opções futuras pode se estreitar, potencialmente reacendendo o debate sobre um movimento mais relevante em FTTH ao longo do tempo”, avalia a XP.
No caso da Vivo, a XP considera que as implicações do M&A “são mais equilibradas”, embora o movimento da Claro não deva ser ignorado, até por sinalizar uma postura mais assertiva na consolidação da banda larga.
“Isso pode incentivar a Vivo a permanecer taticamente ativa, seja acelerando a execução, defendendo participação de mercado ou mantendo atenção a ativos que possam aumentar densidade e reduzir riscos competitivos”, opinam os analistas da XP, em trecho do relatório.
Eduardo Vasconcelos, Teletime, 23 de março de 2026




