Nossa Opinião: BTG Pactual fatura, trabalhadores sofrem
A história recente da Oi ajuda a entender como grandes ativos podem mudar de mãos enquanto dívidas permanecem — e muitas vezes recaem sobre trabalhadores e a sociedade.
Ao longo dos últimos anos, o Instituto Telecom vem alertando para decisões administrativas que contribuíram para sucessivas crises financeiras da Oi, levando-a à recuperação judicial e à venda de partes estratégicas de seus ativos.
Um dos momentos centrais ocorreu em julho de 2021. Naquele mês, o BTG Pactual adquiriu o controle de 60% da chamada InfraCo — posteriormente rebatizada como V.tal — empresa responsável pela rede de fibra ótica da Oi. O banco foi o único grupo a apresentar proposta para adquirir a parte mais valiosa da companhia. Curioso, não?
Desde então, tornou-se evidente a separação entre ativos rentáveis e áreas deficitárias. Em 2024, a Oi vendeu cabos de cobre para a BTG/V.tal. A operação foi informada à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como venda de material considerado “desativado e inservível”, classificado como sucata. Ainda assim, esses ativos passaram a contribuir para os resultados da V.tal, enquanto a Oi continuava acumulando prejuízos.
Agora, um novo capítulo dessa história se desenrola. O BTG Pactual demonstrou interesse em adquirir os 27,5% restantes que a Oi ainda possui na V.tal. O edital estabeleceu um valor mínimo próximo de 12 bilhões de reais. A proposta apresentada pelo banco, no entanto, ficou em torno de 4 bilhões de reais — cerca de um terço do valor inicialmente previsto.
A proposta foi rejeitada por 92% dos credores da Oi e também pelo Ministério Público do RJ. Mesmo assim, a juíza responsável pela recuperação judicial homologou a operação, considerando o valor adequado com base em critérios financeiros utilizados nesse tipo de avaliação. A decisão gerou questionamentos entre credores e representantes de trabalhadores. Mais uma vez o BTG Pactual foi o grande beneficiado.
Enquanto ativos mudam de mãos e disputas financeiras se desenrolam, os impactos sobre os trabalhadores tornam-se cada vez mais visíveis. Funcionários da Serede foram demitidos sem o recebimento de suas indenizações trabalhistas. Na própria Oi, parte significativa dos empregados permanece sem função definida, aguardando decisões administrativas que não se concretizam.
A trajetória da Oi revela um padrão que se repete em diferentes setores: quando ativos estratégicos são transferidos em condições desiguais, os ganhos tendem a se concentrar, no caso nas mãos de André Esteves, dono do BTG Pactual, enquanto os custos sociais permanecem distribuídos. No fim, quem paga a conta costuma ser a sociedade — e, sobretudo, os trabalhadores.
Instituto Telecom, Terça-feira, 07 de abril de 2026
Marcello Miranda, especialista em Telecom – Nº 694




