Impacto da inteligência artificial na infraestrutura de rede domina debates sobre regulação e taxas de conectividade
O avanço da inteligência artificial generativa e a crescente demanda por tráfego de dados colocaram em pauta a necessidade de readequação das infraestruturas e o modelo regulatório do ecossistema digital brasileiro. Mediado por Samuel Possebon, diretor geral da Teletime, o debate, que aconteceu na última semana, durante o AGC26, em São Paulo, reuniu lideranças para discutir se o aumento exponencial do tráfego exige novas formas de financiamento ou se o modelo atual de livre mercado e acordos de interconexão permanece suficiente para sustentar a evolução tecnológica.
Wardner Maia, conselheiro da Abrint, defendeu que as novas demandas por baixa latência trazidas pela IA não devem ser encaradas como um fardo financeiro para os provedores de conectividade, mas como um acréscimo de valor ao serviço prestado. Segundo Maia, a existência de conteúdo é o que justifica a assinatura da banda larga e, historicamente, o maior temor dos provedores era justamente a falta de aplicações que estimulassem o consumo. Ele criticou o movimento que tenta transformar essa demanda em custo para justificar a absorção do lucro de plataformas digitais, destacando que as estruturas de CDN (Content Delivery Network ou Rede de Distribuição de Conteúdo) já funcionam de forma colaborativa entre plataformas e provedores regionais.
Erro estratégico
Essa visão foi corroborada por Alessandro Molon, diretor executivo da Dig.IA, que atribuiu o sucesso da conectividade no Brasil ao empreendedorismo dos pequenos prestadores. Molon ressaltou que as aplicações são a razão de ser da internet e que o usuário deve manter o direito de escolher o conteúdo que consome, pagando pela conectividade e não pelo acesso a serviços específicos. Para o executivo, propostas de cobrança por tráfego, como a taxa de rede, seriam um erro estratégico, citando o exemplo negativo da Coreia do Sul. Em vez disso, ele sugeriu incentivos tributários para a instalação de CDNs, data centers e cabos submarinos para aproximar o processamento do usuário final.
Por outro lado, Lucas Gallitto, head LATAM da GSMA, propôs um convite ao pensamento crítico sobre as regras estabelecidas há duas décadas. Com o tráfego de vídeo saltando de 1% para 90% do total e a perspectiva de crescimento vertiginoso da IA generativa nos próximos cinco anos, Gallitto afirmou que a conectividade de qualidade é um recurso finito que exige incentivos para o uso eficiente. Embora não defenda necessariamente o aumento da regulação, o representante da GSMA pontuou que a ausência de regras também é uma escolha regulatória e que é preciso analisar se as normas vigentes são suficientes para garantir a jornada de inovação futura, citando que diferentes países podem exigir soluções distintas.
Antonio Moreira, projects and development manager Nic.br, trouxe uma perspectiva técnica ao debate, afirmando que a evolução da IA e da nuvem traz desafios de integração, mas nada que fuja da capacidade de adaptação que a internet demonstrou nos últimos anos. Ele reforçou que os pontos de troca de tráfego já se preparam para grandes transferências de dados entre diferentes nuvens e aplicações. Moreira descartou a urgência de uma mudança de postura regulatória ou de novas taxas, argumentando que o modelo de sistemas autônomos e acordos de peering funciona bem e possui ferramentas de autorregulação técnica que não demandam intervenção financeira sobre o tráfego.
O setor de radiodifusão, representado por Cristiano Flores, presidente-executivo da Abert, também se posicionou contra a taxação de rede, mesmo com o advento da TV 3.0. A nova geração da televisão aberta incorporará funcionalidades de internet, como publicidade segmentada e interatividade, exigindo que os aparelhos estejam conectados para oferecer uma experiência completa. Contudo, Flores enfatizou que a inovação tecnológica da radiodifusão não justifica a retomada de debates sobre taxas, defendendo que qualquer diagnóstico regulatório deve ser feito com cautela para não impactar o desenvolvimento de novos serviços gratuitos e abertos ao cidadão.
Jackeline Carvalho, IP News, 11 de maio de 2026




