Nossa Opinião: Eleições — as big techs controlam os algoritmos. E o voto?
Em entrevista ao The Intercept Brasil, os pesquisadores Fernando Filgueiras e Virgilio Almeida, autores do livro Política dos algoritmos, fazem um alerta direto: “os sistemas digitais passaram a definir regras sociais com o mesmo peso do Congresso ou da Constituição.”
A diferença, destacam, é que instituições democráticas são, ou deveriam ser, transparentes, enquanto os códigos das grandes plataformas – como Google, Meta , X, Microsoft – são opacos e mudam sem aviso. Ainda assim, influenciam o trabalho, as relações sociais e até as eleições.
Nas eleições de 2026, o risco se amplia com a inteligência artificial generativa. Segundo Virgilio Almeida, “o grande risco é a capacidade de manipulação que esses novos algoritmos têm.” Ele chama atenção para a antropomorfização — quando pessoas passam a confiar emocionalmente em sistemas automatizados.
Para Fernando Filgueiras, ainda não há soluções robustas: “na prática, a gente ainda não tem uma perspectiva sólida” para conter a desinformação em larga escala, o que tende a manter o ambiente eleitoral polarizado e instável.
Entre as propostas, destaca-se a atuação mais rigorosa da Autoridade Nacional de Proteção de Dados, para limitar o uso indevido de dados pessoais e reduzir a capacidade de manipulação dos eleitores.
Os pesquisadores defendem que algoritmos devem ser tratados como instituições sociais, e, portanto, passíveis de regulação democrática. Isso inclui torná-los mais auditáveis, transparentes e sensíveis às realidades sociais, evitando vieses como os observados em sistemas de reconhecimento facial.
O Tribunal Superior Eleitoral já adotou medidas: conteúdos sintéticos (gerado integralmente por sistemas de inteligência artificial, sem intervenção humana) sem identificação devem ser removidos; deepfakes são proibidos; e plataformas podem ser responsabilizadas por conteúdos irregulares. São passos importantes, mas claramente insuficientes diante do poder dessas plataformas.
O ponto central é simples: algoritmos não são neutros. São construídos por grandes corporações que têm interesses econômicos e políticos. E, quando não há regulação, esse poder atua sem controle democrático.
A extrema direita que se opõe à regulação das plataformas digitais e da inteligência artificial, na prática, defende a manutenção desse poder concentrado. Defende que poucas empresas decidam o que milhões de pessoas veem, pensam e, em última instância, votam.
A democracia não pode ser refém de códigos opacos. Regular as big techs não é censura , é condição para garantir soberania, transparência e eleições justas.
Em outubro de 2026 não estará em jogo apenas a escolha de candidatos. Estará em disputa quem controla o fluxo da informação, e, portanto, os rumos da própria democracia brasileira. Você vai deixar que as grandes plataformas articuladas com o que há de pior na política controlem o seu voto?
Instituto Telecom, Terça-feira, 12 de maio de 2026
Marcello Miranda, especialista em Telecom – Nº 699




