Nossa Opinião: Exclusão dos idosos vai além da segurança digital

jun 16, 2026 by

Nossa Opinião: Exclusão dos idosos vai além da segurança digital

Essa é uma das conclusões que emergem da auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), em dezembro de 2025, sobre as fraudes digitais praticadas contra a população idosa.

O documento examinou a atuação dos órgãos federais, do setor de telecomunicações e das instituições financeiras entre 2021 e 2025 e revelou um crescimento alarmante desses crimes. As ocorrências de golpes patrimoniais contra pessoas idosas aumentaram 248% entre 2021 e 2024. Em 2024, cidadãos com mais de 60 anos representaram 44% das vítimas de fraudes digitais no Brasil.

De acordo com o TCU, 66% dos brasileiros acima de 60 anos utilizam a internet. A população idosa tornou-se um dos principais alvos das quadrilhas especializadas em crimes cibernéticos. Pesquisa realizada pelo próprio Tribunal mostrou que são frequentes tentativas de fraude envolvendo falsas mensagens de familiares, falsos sequestros, criminosos se passando por bancos ou operadoras de telefonia, além de pedidos para confirmação de códigos enviados por SMS ou WhatsApp.

O levantamento apontou três desafios centrais. O primeiro está relacionado ao setor de telecomunicações. Foram constatadas fragilidades como adulteração de números telefônicos, falhas no cadastramento e habilitação de chips, insuficiência no bloqueio de chamadas automáticas em massa e ausência de medidas específicas de proteção para as pessoas idosas. Por isso, o TCU determinou que a Anatel fortaleça os instrumentos regulatórios e fiscalizatórios, ampliando a verificação de identidade dos usuários e a rastreabilidade das comunicações.

O segundo desafio refere-se à insuficiência das ações educativas. Segundo o estudo, as iniciativas de conscientização são fragmentadas, descontínuas e muitas vezes utilizam canais digitais que não alcançam adequadamente esse público. O Tribunal recomenda campanhas permanentes em televisão, rádio, bancos, unidades de saúde e outros espaços frequentados pela terceira idade.

O terceiro desafio encontra-se no setor bancário. A análise identificou dificuldades das instituições financeiras para detectar operações suspeitas, bloquear transações fraudulentas e reduzir os prejuízos sofridos pelos idosos. O TCU defende a adoção de ferramentas específicas de segurança e atendimento especializado para esse segmento.

O documento também destaca que muitas vítimas deixam de denunciar as fraudes por vergonha ou constrangimento, o que dificulta ainda mais o combate ao problema. Além disso, registra que as operadoras de telefonia ainda não apresentaram respostas suficientemente eficazes para conter práticas criminosas realizadas por meio da telefonia móvel. Não por acaso, 75% dos entrevistados declararam confiar pouco ou nada nessas empresas.

A conclusão do TCU é clara: combater as fraudes digitais exige atuação integrada entre órgãos públicos, setor de telecomunicações e instituições financeiras. Mas a questão ultrapassa a segurança no ambiente virtual. Quando a transformação digital dos serviços avança sem educação tecnológica, acessibilidade e garantias de proteção, a tecnologia deixa de ampliar direitos e passa a criar novas barreiras. Assegurar segurança e inclusão digital significa garantir cidadania plena para milhões de brasileiros idosos.

Instituto Telecom, Terça-feira, 16 de junho de 2026
Marcello Miranda, especialista em Telecom – Nº 704

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